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Martinho Lutero: Reforma e Renascimento
01/11/2010 - José Francisco Souza (Pr.Kiko)
 
Somos resultado de uma história, nosso tempo presente só tem razão porque há em sua essência um passado, uma trajetória no tempo e no espaço que imprime em nossa identidade sua singularidade. Como batistas temos uma história marcada de luta pela liberdade religiosa. Anglicanos, puritanos e separatistas, são os nossos protótipos históricos que se valeram de uma iniciativa gloriosa do século XVI, denominada Reforma Protestante.

Talvez você se espante, mas não somos uma denominação Reformada e Protestante que aconteceu diretamente do movimento do século XVI, somos parte de uma segunda geração de denominações que nasceram, no mínimo, um século depois da Reforma e entenderam que deveriam ainda reformar a Reforma. Isso é muito positivo por nos caracterizar pela disposição e a coragem de nos auto-avaliar constantemente, fazendo uma leitura do passado para mudar e crescer no presente, visando saltos no futuro que alcançarão o mundo. É uma despretensão radical à estagnação e à institucionalização da Igreja de Cristo, contrariando a inércia tradicional e tendenciosa da Instituição Romana e do denominacionalismo.

A Própria Reforma é uma autocrítica, pois nasceu no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, com a pretensão de desenvolvimento a partir do caráter dinâmico da fé cristã e do diálogo que ela sempre se dispõe com a sua contemporaneidade.  A Reforma como movimento em si está intimamente relacionada com o Renascimento do Ocidente. Como interprete da história, creio que ela é um produto do próprio Renascimento e, portanto, em seu contexto, sempre esteve intimamente ligada ao seu cenário histórico em termos econômicos, políticos, sociais, culturais, antropológicos, filosóficos e teológicos.

Portanto, é sempre um grande prazer escrever sobre a Reforma Protestante do século XVI, um dos grandes marcos da história do Ocidente. Prova disto, é o grande número de textos publicados sobre o cisma do Cristianismo em tempos modernos. Textos que deveriam nos interessar, já que elucidam nossa história e nos ajudam a entender onde estão, e quais são nossas raízes, além de desmistificar heróis e fatos que em algum momento foram interpretados erroneamente, para defender uma tradição ou por terem sido filtrados pelo romantismo distanciado da realidade e dos métodos de pesquisa adequados (ver “O Rasto de Sangue” J.M Carroll).

Pensar na Reforma é aludir a um nome. Apesar dos vários personagens ilustres que se destacaram como empreendedores do movimento, Martinho Lutero é figura impar e merecedora de nossa atenção.

Sem nenhum ufanismo, ou pretensão de reconstruir o herói, pois já há muito se conhecem e se expõem as fraquezas do alemão, dado à bebida fermentada feita da cevada, adverso a judeus e não amigo dos camponeses, é importante que se considere aqui sua pessoa por imprimir no movimento um acentuado caráter espiritual e pessoal, que ao mesmo tempo nos ensina sobre nossa condição de pecadores e sobre a liberdade configurada em paz, consolo e esperança que se pode ter ao reconhecer-se tal realidade.

Diz a história que foi em 31 de Outubro de 1517 que o monge agostiniano, doutor em Teologia e professor de Bíblia, anexou na porta da igreja de Wittenberg suas famosas 95 teses, para um contraponto, com a teologia oficial da época, questionada em alguns itens, a saber, a autoridade papal, o comércio de indulgências, a mediação clerical, entre outros.

Lutero foi um desses homens inconformados com o seu tempo. Dono de uma piedade rigorosa, durante muito tempo lutou com o seu pecado. Mesmo seguindo todas as regras dos agostinianos, penitenciando-se constantemente, não podia viver em paz com o seu espírito.
No convento Lutero havia lutado com todas as suas forças para alcançar sua salvação, pelo cumprimento de obras meritórias. Praticava alguns atos que certamente lhe debilitaram a saúde; dias de jejum e noites frias sem o calor de um cobertor. Mas qual foi o prêmio por seus esforços? Um imenso desalento, espantosas crises de desespero e pouco a pouco, a convicção de que toda a luta havia sido em vão, pois o desejo se mostrava invencível e o seu pecado, permanente. O pecado não era uma simples fraqueza que poderia ser curada com qualquer remédio. Para Lutero, era o poder maldito e infinito, que separa o homem de seu Criador.

A inconformidade, o sofrimento, o insucesso, o desencanto consigo mesmo e com o que havia crido até então, o fizeram mergulhar numa busca profunda. Estudioso do texto bíblico foi esse o caminho iluminado pelo Espírito Santo para que compreendesse algo que o seu tempo e sua teologia não permitiriam, não fosse a sua ânsia pela verdade do cristianismo, pelo perdão de Deus, pela justificação através da fé.

Foi como professor de um curso sobre a Carta de Paulo aos Romanos, na Universidade de Wittenberg, que Lutero, ao debruçar-se sobre o texto grego, desenvolveu os cinco pilares de sustentação dos ensinos da Reforma: “Sola Fides”, “Solo Christus” , “Sola Scriptura”, ‘Sola Gratia”, Soli Deo Gloria (Somente a fé, Somente Cristo, Somente as Escrituras, Só a Graça, a Deus toda Glória). Ele desvendou o mistério das suas insatisfações como cristão, a saber, a salvação se dá por meio da fé em Jesus Cristo e as Escrituras fornecem as diretrizes da fé e do comportamento cristão. O resultado de sua façanha teológica está em suas próprias palavras, citadas pelo historiador francês Lucien Febvre em seu livro “Martinho Lutero um Destino”: “Em seguida me senti renascer. As portas se abriram para mim de par em par. Eu entrava no paraíso. A Escritura me revelava outra face”. A descoberta do doutor foi a semente lançada que haveria de florescer como uma nova Igreja, libertada do fardo das “boas obras” que se transformaram em expressão de fé e de amor a Deus e ao próximo.

O monge pecador, desesperançoso de si mesmo e de suas obras, não se aquietou enquanto não subiu do inferno em que vivia em seu interior. Descobriu um caminho, completamente diferente, o seu próprio sacerdócio. Em lugar de manter a rigidez e o esforço excessivo de sua vontade débil, envolvida pelo pecado, decidiu despojar-se de si mesmo, ainda que confuso pela mescla de alegria e anseio pelo desconhecido, e pelo terror e medo da transgressão da “verdade” tradicional, experimentou o renascimento, a ação poderosa da vontade sobrenatural de Deus em Cristo Jesus, infinitamente santa e verdadeiramente regeneradora, lugar de seu refugio seguro onde viveu a plenitude da liberdade divina, desfrutando do dom que lhe faltava, a paz, o consolo e a esperança no Senhor.

Sola Gratia
Pr. Kiko.

 
 
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